Uma belíssima e emocionante despedida uniu amigos, artistas, políticos, funcionários e fãs, marcando a cerimônia de imortalidade do artista plástico e escultor Frans Krajcberg no final da manhã deste domingo (03/12), quando suas cinzas foram depositadas no tronco da árvore que sustenta a sua tão famosa e fotografada “Casa do Tarzan”, no Sítio Natura, na cidade de Nova Viçosa, onde o artista morava desde 1972.

O filho mais ilustre da cidade de Nova Viçosa e o artesão mais importante do mundo, o artista plástico Frans Krajcberg morreu aos 96 anos de idade no final da manhã de quarta-feira, feriado da proclamação da republica (15/11/2017), no Rio de Janeiro, onde estava internado há um mês no Hospital Samaritano, na zona sul da cidade.

No último dia 12 de abril, quando Frans Krajcberg comemorou em seu Sítio Natura, endereço que todo mundo respeita e admira, em Nova Viçosa, seus 96 anos de idade, na presença de muitos empresários colecionadores das suas obras, políticos e artistas importantes, ele já apresentava um quadro de saúde fragilizado.

No último dia 12 de outubro, Frans Krajcberg foi acamado por causa de uma gripe forte e terminou levado para uma unidade hospitalar em Teixeira de Freitas, cidade há 125 quilômetros de Nova Viçosa. Mas terminou sendo transferido para o Rio de Janeiro, onde chegou à capital fluminense com várias infecções e com o quadro detectado de pneumonia.

Testamento:

Mesmo Frans Krajcberg tendo doado todo seu acevo e patrimônio para o Governo da Bahia no ano de 2009 que, deve se comprometer ainda mais agora após sua morte com a preservação de tudo que deixou para a história -, Frans Krajcberg lavrou em vida e registrou no cartório de Nova Viçosa no ano de 2015, seis anos após a doação de todo seu patrimônio ao governo do Estado da Bahia, um testamento em que nomeou 5 pessoas que julgou da sua inteira confiança e que mais amou em vida para continuar dirigindo seu patrimônio e preservando sua história, sem que o Estado tenha o direito de destitui-las.

A comissão é formada pelas seguintes pessoas herdeiras: A galerista mineira Márcia Barrozo do Amaral, radicada no Rio de Janeiro e há 30 anos era a pessoa quem organizava as exposições de Frans Krajcberg e comercializava suas artes.

O escultor Oraldo dos Nascimento Costa, primeiro funcionário do artista e foram 45 anos de amizade e cumplicidade entre os dois.

O policial militar Carlos Roberto Magalhães Monteiro que há 14 anos chefiou a segurança de Frans Krajcberg e com ele viajou o mundo.

A jovem Marlene Figueiredo Gonçalves, a secretária direta do escultor e gerente dos seus negócios que nos últimos 13 anos dedicou sua vida ao artista e, era a pessoa que Frans Krajcberg considerava como filha.

O advogado Ernani Griffo Ribeiro, procurador de carreira do município de Nova Viçosa e amigo de quase três décadas de Frans Krajcberg e foi quem sempre cuidou da sua vida jurídica, inclusive foi o testador de Krajcberg e por 2 anos guardou segredo absoluto sobre o testamento feito pelo artista.

Batalha judicial pelo corpo:

A morte de Frans Krajcberg foi notícia no planeta inteiro em vista da sua importância para a arte mundial. Mas o corpo de Frans Krajcberg que era aguardado pelo mundo inteiro para ser visto pela televisão e velado pelos artistas e amigos no Rio de Janeiro, não foi possível por causa de uma batalha judicial em reivindicação do seu corpo. Uma Associação Judaica reivindicou o seu corpo na justiça alegando que Frans Krajcberg era sobrevivente de guerra e descendente de judeus e, teria que ser sepultado e não cremado, conforme a vontade dele.

Como Frans Krajcberg morreu no feriado da proclamação da república, então se começou uma batalha judicial. Uma magistrada do plantão judicial do feriadão no Rio de Janeiro determinou que o corpo fosse entregue a Associação Judaica. Daí os herdeiros oficialmente nomeados pelo artista travaram uma batalha judicial para provar que falavam como família e ainda tiveram que materializar as provas por meio de filmes, documentários e registros outros que Frans Krajcberg desejava que fosse cremado quando morresse e suas cinzas depositadas no tronco da Casa da Árvore no Sítio Natura, em Nova Viçosa, no tronco da árvore conhecida Casa do Tarzan, como ele mesmo denominava.

Enquanto não se decidia o destino do corpo do artista plástico, ele era mantido conservado numa câmera fria de um instituto particular no Rio de Janeiro. Somente no domingo pela manhã (19/11), os herdeiros conquistam o direito de ter acesso ao corpo do artista, quando a mesma juíza revogou a sua decisão e a comissão de herdeiros temendo uma nova deliberação superior e seguindo orientação jurídica, providenciaram logo a cremação do corpo e a preparação das cinzas, ocorrendo como previsto e desejado pelo artista, a sua cerimônia de imortalidade na manhã deste último domingo (03/12), no Sítio Natura, em Nova Viçosa.

A Imortalidade:

As cinzas foram colocadas em uma urna de Mármore Carrara e depois a urna foi estruturada no tronco da árvore que sustenta a Casa do Tarzan, onde Frans Krajcberg morou. Somente no último ano de sua vida, ele deixou de subir a escadaria da casa, após uma recomendação médica. Na cerimônia de imortalidade do artista, inúmeras pessoas importantes da política, das artes, das letras, do cinema, do mercado empresarial, funcionários e fãs expressaram os seus mais diferenciados sentimentos e definições para a vida e obra de Frans Krajcberg.

A secretária do artista Marlene Figueiredo, disse: “Ele era simplesmente um gigante”. A cineasta paulista Regina Jehá, companheira de Sepp, que o acompanhou em algumas viagens ao Pantanal e Amazônia, pontuou dizendo: “Era um sábio que levou uma vida plena”. O escritor paraense João Meirelles Filho, ressaltou: “Frans partiu, mas seus ideais e suas obras continuam e continuarão a ecoar fortemente”. O prefeito de Nova Viçosa enfatizou: “A natureza perdeu o seu maior defensor, mas o seu patrimônio será mantido”. O policial militar Roberto Magalhães que por 14 anos cuidou da segurança do artista, disse que Krajcberg foi o ser humano mais fascinante da terra e soltou essa: “Quando a Polícia Militar me designou para cuidar da segurança de Frans, ninguém poderia imaginar que o Estado estava premiando”.

O advogado e herdeiro Ernani GrifFo lembrou que Frans Krajcberg produziu obras até o momento em que foi internado. “Ele produziu muito a vida toda, até o final. As obras são maravilhosas e produzidas sob uma visão ótica de alta precisão. É surpreendente que um artista, já da idade dele, introduziu tantas modificações na própria arte”, destacou.

Vida e Obra:

Ativista, Krajcberg lutou contra a destruição de florestas desde que chegou sozinho ao Brasil, em 1948. Toda a sua família, de origem judia, foi morta em campos de extermínio nazistas. Krajcberg também chegou a ser preso pelos alemães, mas conseguiu escapar para território soviético, ajudando a construir pontes durante a guerra (ele estudou engenharia).

Frans Krajcberg que ficou conhecido pela luta contra a devastação das florestas, nasceu em Kozienice, Polônia, em 12 de abril de 1921. Ele era naturalizado brasileiro desde 1957, no entanto, sempre se afirmou como brasileiro. “A imprensa insiste em dizer que sou polonês naturalizado brasileiro; não sou. Sou brasileiro”. Ele vivia no Brasil desde 1948 e residia em Nova Viçosa desde 1972, após ter se apaixonado pelos manguezais da cidade. Frans Krajcberg era considerado um dos 10 artistas vivos mais importantes do Mundo e o mais importante escultor do Planeta Terra. Ele é o único brasileiro (agora imortalizado) que possui um museu em Paris, na França.

A exuberante natureza de Nova Viçosa lhe deu o refúgio que buscava, onde morava desde 1972, abrigado na sua fabulosa Casa da Árvore, que ele gostava de chamar de “Casa do Tarzan”, além de ter ficado o seu amplo museu abrigando as suas obras mais famosas que nunca quis vender e que viajou o mundo com ele. O Sítio Natura, onde residiu os últimos 45 anos da sua vida cercado pela única porção de Mata Atlântica remanescente na região, e que tomou para si a tarefa de manter intacta, Frans Krajcberg estava construindo um museu para abrigar suas obras mais famosas. Ele foi escultor, pintor, gravador e fotógrafo. Por meio de suas obras, ele fez críticas a queimadas, exploração de minérios, desmatamento da Amazônia e desova de tartarugas marinhas. (Por Athylla Borborema).

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